Ciência x Religião: um conflito inútil

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No final do ano, o site Edge.org tem por tradição apresentar à algumas mentes consideradas “brilhantes” uma questão com respostas em aberto. Houve um ano em que a pergunta foi “o que os deixam otimistas em relação ao futuro. Chegaram 150 respostas e, tratando-se de cientistas, editores, prêmios Nobel, intelectuais etc, os textos são longos  (a lista ocupa 16 telas do site ou 230 páginas impressas). Muitos apontaram os avanços da ciência como um sinal seguro de que há razões para o otimismo. Entre alguns destes, um traço comum chama a atenção: está bem próximo a descoberta de “algo (o que, precisamente, não é dito) que tornará Deus absoleto”. Os mais convictos de que a ciência provará que Deus é desnecessário são o evolucionista Richard Dawkins e o filósofo Daniel Dennett. O físico Marcelo Gleiser, único brasileiro na lista, é bem mais cauteloso e se mostra incomodado com a insistência neste conflito entre ciência e religião. “Não dá para esquecer o que está por trás da experiência religiosa. É a esperança. A vida é dificil, a religião oferece segurança”, disse Marcelo ao jornal O Estado de São Paulo. No romance A Harmonia do Mundo, que escreveu o ano passado, Marcelo Gleiser abraça a visão do astronômo Johannes Kepler (1571-1630) que, ao retomar a teoria copernicana,  viu a disposição do sistema solar como a perfeição da obra divina. Uma perfeição e uma unidade que Kepler também via refletida no conhecimento humano, da geometria à música, da astrologia à astronomia.

A convicção de que a ciência derrotara Deus, portanto, nunca foi nem é unaminidade entre os cientistas. O confronto, entretanto, existe e poderá ser arrastar por muito tempo ainda. Penso que de forma inútil e desnecessária. Lembro-me dos primeiros versículos revelados por Deus ao profeta Mohammed (que a paz e as benções de Deus estejam com ele): “Lê, que o teu Senhor é o mais Generoso, Que ensinou através da pena, Ensinou ao homem o que este não sabia” (96:3-5). Para nós muçulmanos, não pode deixar de ser revelador que as primeiras palavras e recomendações da Mensagem Divina se refiram a busca e a fonte do conhecimento. Essa relação comprova que religião e ciência, pelo menos no Islã, não devem ser antagônicas. A teoria da seleção natural de Darwin é o dogma da sociedade científica contemporânea: “o homem é o resultado de um processo natural e não intencional”. As tradições de leituras literais sobre a Criação nas Escrituras reveladas (não apenas do Sagrado Alcorão) levou a dogmas distintos e tem alimentado o aspecto mais visível do confronto entre as ciências e a religião quanto à questão do surgimento da humanidade.

O dogmatismo nas ciências é uma herança do Iluminismo, que rejeitou, a piori, qualquer valor ao conhecimento religioso sobre o universo físico criado por Deus. Alguns evolucionistas levaram um pouco mais longe as teses da religião natural de Hume, e negaram não apenas o ato criador divino, mas a própria existência de um Poder Criador. A base desta negação, como está explicada no livro O Relojoeiro Cego, do já citado evolucionista Richard Dawkins, é uma generalização apriorística que “diviniza” a teoria do acaso (na medida que a considera onipotente). O que a teoria não explica é a origem da “inteligência” que imprime nas células um único tipo de ação para atender às necessidades de adaptar-se às mudanças que ocorrerem no meio em que vivem. Nenhum organismo vivo, movido unicamente por “impulsos elétricos”, é capaz de reproduzir, por si mesmo, um único e exclusivo “plano de ação” se não compartilhar algum tipo de conhecimento sobre ele com uma inteligência superior. Resultados de sucesso ao acaso, sem a presença desse conhecimento, são improváveis diante das muitas variantes de ações possíveis. Dawkins usa para comprovar sua tese os resultados de simulações evolucionistas feitas por computador e esquece (propositadamente/) a inteligência que está por trás do programa de informática utilizado.

A teoria do acaso é, ainda, um contra-senso científico, aceitável apenas se admitirmos a existência de provas posteriores à formulação da própria tese – o chamado elo perdido. Ou seja: admite-se que as provas venham a se adaptar à tese e não o contrário, como exige o verdadeiro espírito científico. Alguém pode lembrar os fósseis como provas, mas nem os paleontólogos acreditam que eles são suficientes. Isso porque, como vimos, não bastaria a combinação de múltiplos “acasos” no desenvolvimento simultâneo de várias células de um único organismo vivo. Seria preciso, ainda, que essa combinação se multiplicasse igualmente por vários milhares de espécimes desse organismo para que, diante das condições naturais do habitat adverso e da ação dos predadores, a mudança viesse a se perpetuar em uma nova espécie e/ou forma de vida. Desta maneira, as provas das fases intermediárias entre uma e outra forma de vida – o elo perdido – estariam preservada, com mais probabilidades que outras mais antigas, e já teriam sido descobertas. Os fósseis até aqui encontrados, como admitem mesmo os paleontólogos, são peças iniciais de um quebra-cabeça incompleto e não provam a teoria do acaso ou da evolução macaco/hominídeos/homo como uma série completa e contínua de mudanças. Tudo que demostram, de forma irrefutável, é que em determinadas épocas a diversidade biológica das formas de vida existentes na Terra era maior do que a atual.

em An Nissá 1: Ó humanos, temei a vosso Senhor, que vos criou de um só ser … Segundo o comentário do prof. Samir El Hayek, autor de uma tradução do Alcorão para o português, o termo nafs (ser, ego, pessoa vivente, vontade, alma) e a expressão Min-há (uma espécie, uma natureza, uma similaridade), associada a ele, pode ser tomado no contexto de forma mais ampla do que referindo-se apenas a “um único indivíduo”. O versículo designaria, então, que a alma, singular aos humanos, foi concedida a uma única espécie, no caso a espécie adâmica, a humanidade. O que nos leva as seguintes questões: fica implícita a possibilidade de ter havido outros tipos de espécies criadas não dotadas de almas? Seriam elas os fósseis que a arqueologia antropológica vem descobrindo e estudando… E Adão, como fica nesta interpretação? Como sempre esteve: foi ele o primeiro desta espécie, singular entre todas as outras criadas pelo Todo Poderoso.

No Alcorão, o conceito de Criação divina não está separado da idéia que nós, humanos, fazemos do que seja evolução, aqui empregada para definir uma “série de movimentos concatenados e harmônicos”, que é entendida como se estendendo ao longo de uma linha no tempo/espaço (conceitos puramente humanos), mas não estando limitada por ela. Para corroborar, lembro-me das afirmações de que Deus “aumenta a criação,  conforme lhe apraz” (35:1) “e cria coisas mais, que ignorais’ (16:8) , ou mesmo de que “a duração de um dia para Ele é equivalente a 50 mil anos” (Al Ma’árij 4). E em Al Furcan 54 há, ainda, a afirmação de que “Ele foi Quem criou os humanos da água”, uma antecipação – mais de 1.200 anos antes do desenvolvimento das ciências biológicas – do conhecimento (reiterado em An Nur 45 e Al Anbiyá 30) de que a origem de toda vida está relacionada ao meio líquido. Tal afirmação deve ter parecido, no mínimo, desconcertante para os primeiros que a ouviram e, certamente, continua sendo para os que não acreditam no Poder de Deus e na veracidade da revelação feita ao Profeta (s.a.a.s).

Certamente, não devemos ler o Sagrado Alcorão, ou qualquer outra Escritura, procurando provas para as teorias modernas das ciências. O essencial das Revelações transmitidas por Deus não é indicar teorias explicativas para a existência física do Universo ou da humanidade. Mas também não devemos ignorar os signos que lá estão para explicarem essa existência. Cada Revelação é completa – e acredito que a Palavra de Deus é o que existe de único que podemos considerar completo em si mesmo – por ser evidente, mas também contêm signos “ambíguos” para que, oportunamente, esses sejam interpretados e corroborem a veracidade e completude da mensagem divina. E para que, também, a nossa busca por respostas não nos desvie da base de toda a sabedoria. O ser humano veio para este mundo para progredir através de conhecimento e prece. Em termos de sua natureza intrínseca e capacidade, tudo é relacionado ao conhecimento. E o princípio, fonte, luz e espírito de todo conhecimento verdadeiro é o conhecimento de Deus. E a essência e o princípio do conhecimento de Deus é a fé em Deus.

Carlos Peixoto

Jornalista

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