Brincando nos jardins do Senhor

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Frase : “Os céus proclamam a glória de Deus e o firmamento anuncia as obras das suas mãos” (Salmo 19:1).

Uma tarde destas de domingo, depois das chuvas que têm aparecido nos últimos fins de semana, saímos eu, Nayara (minha neta, filha de Alexandre) e Alexis (meu filho mais novo) para o jardim. Estávamos cuidando de algumas plantas, brincando e tomando banho de mangueira, quando notamos as nuvens no céu. Não eram escuras, cinzentas nem brancas. Eram de um azul diferente, entre o azul-marinho e o azul de um jeans antigo e muito lavado, refletindo o brilho de um sol que não víamos. Nayara perguntou que azul era aquele. “O azul de Deus”, respondi.

Não, não foi uma epifania – vivemos desatentos demais para, ainda, percebê-las – nem a coluna de hoje será uma tentativa de catequização – pelo mesmo motivo, ela não surtiria efeito. Estávamos os três, ali no jardim, para brincar, e as nuvens, vestidas com um jeans surrado e aconchegante – como pedem os dias de chuva, estavam belas e simples e faziam parte da brincadeira. Eu poderia ter optado por uma explicação racional, mas preferi atribuir toda aquela beleza a um sinal da presença divina. Foi minha vontade escolher aquela e não outra explicação. É assim que se preservam algumas das coisas mais belas que nos ocorrem no cotidiano, nas relações pessoais com os outros ou nas descobertas do espírito, e que de outra forma se perderiam: pela vontade de nos abrirmos para algo transcendente, mais alto e maior que nós.

Tenho um amigo, a quem considero como um dos homens mais inteligentes que conheço, e ele escolheu não ter fé. Apesar de admitir a existência de Deus, alega não poder se submeter a um Ser alheio e indiferente à existência humana e, ainda, injusto por premiar os maus com uma vida fácil e os bons com dissabores. Eu objeto que as privações, dores e calamidades provam, fortalecem e preparam os bons, moldando-lhes um caráter reto e a fé. “Por conta disso, Deus e eu não chegamos a um bom termo”, me diz ele. “Deus ama os bons como um pai que educa o filho ensinando-o sobre o trabalho árduo, as responsabilidades, e não com mimos”, replico… Inútil. Para ele, minha fé não é prova suficiente da benevolência de Deus, assim como a descrença dele não é motivo para abandonar a minha fé. Fizemos nossas opções. Ambos acreditamos que elas só foram possíveis porque o Universo foi ordenado de maneira tal que a vida humana se tornou viável, de-senvolveu-se, adquiriu consciência e a vontade de ser livre. O que ele atribui ao acaso na evolução, eu atribuo à Providência divina.

O que me fez atribuir a Deus as cores daquelas nuvens, foi a minha fé, não a razão. É inútil tentar provar ou desmentir a existência de Deus pela lógica. Qualquer que seja o resultado do debate, pouca ou nenhuma importância ele terá para a fé. Um hadith do  profeta Muhammad atribui à Criação, entre outros, o objetivo de Deus poder se revelar aos homens. “Eu era um tesouro oculto e quis ser conhecido”. Conquanto Deus queira ser conhecido, é impossível e será sempre frustrante, para o crente desavisado, adquirir esse conhecimento e aproximar-se Dele racionalmente. Já no século XI, o filósofo Abu Hamid Al-Ghazzali experimentou e abandonou a corrente racionalista que tentava “provar” a existência  de Deus. “A razão nada nos pode dizer sobre Ele, mas apenas nos ajudar a encontrá-Lo”.  Por quê? Porque Deus é transcendente e “ninguém pode ser comparado a Ele” (Sura 42:11).

A transcendência divina frente à realidade humana é interpretada, em geral, como sinal de que “Deus está distante”. E esse “distanciamento” usado como um argumento contra os crentes, que depositariam sua confiança em  “um deus longínquo, autocrático e indiferente a sua própria criação”. É um argumento simplista e equivocado. O que é transcendente é a Realidade divina, incognoscível ao saber humano, não a Sua presença. Apesar de distinto de tudo que seja humano ou existente nos céus e na terra, Deus está próximo dos homens. “Fomos Nós que criamos o homem e sabemos o que sua alma lhe sussurra. Estamos mais perto dele que sua veia jugular” (Sura 50;16). É um outro místico do Islã, o poeta e dervixe persa Jalálud-Din Rumi, quem nos adverte: “O que não pode ser concebido nem compreendido/Entra em minha alma quando te venero”. Assim também dizem os Salmos e os Evangelhos.

Para mim, descrente não é quem desacredita da existência de Deus, mas quem não reconhece a dívida de gratidão pelos favores com que Ele nos cumulou. E um crente não é àquele que apenas declara sua fé, mas todos os que honram a Deus, submetendo-se a Ele e praticando o bem que nos cabe realizar na Criação, o Jardim do Senhor.

Carlos Peixoto

Jornalista

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