Em nome de Deus, o Clemente, o Miséricordioso

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Infelizes daqueles cujos corações estão endurecidos diante das lembranças de Deus (Surata 39:22)”

Filho e neto de calvinistas, os mais renitentes dos reformadores do século XVI, sempre me pareceu exagerada a pretensão evangelizadora que fez do cristianismo a única via de aproximação entre Deus e os homens. Me interessei pela história das outras religiões e aprendi que Deus é Único. É a Força Criadora na natureza, é a Consciência por trás da Realidade. Deus é indiferente aos nomes pelos quais o chamamos, mas não aos ape-los que lhes são feitos.

A primeira leitura que fiz do Alcorão foi de uma tradução de Mansour Challita, há 15 anos. Esta é a mais popular, mais não a melhor das traduções disponíveis em português. Há uma edição dos “Significados  dos Versículos do Alcorão Sagrado”, com comentários, do professor Samir El Hayek , considerado melhor e que permite, ao leitor não familiarizado com a tradição e a história do Islam, enterder mais facilmente a mensagem e a beleza dessa religião. Escolhi a Fãtiha (a surata de abertura) como a mais bela das orações  pessoais à Deus: “Em nome de Deus, o Clemen-te, o Misericordíoso./Louvado seja Deus, o Senhor dos Mundos,/O Clemente, o Misericordíoso,/O Soberano do Dia do Julgamento./A Ti somente adoramos,/Somente de Ti implo-ramos socorro./Guia-nos na senda da retidão,/A senda dos que favorecestes, não dos que incorrem na Tua ira, nem dos que estão desencaminhados.”

A beleza da Fãtiha  está na autenticidade com que resume todos os favores que podemos esperar  da Clemência e Misericórdia divinas – atri-butos que confirmam o Amor de Deus pela Criação e que anulam a manifestação da Sua Ira. O que temos o direito de pedir a Deus, além de sermos guiados para a senda da retidão? Ao trilhar o caminho certo, perseverando na Fé, na Justiça, na Caridade, no Amor e na Esperança, tudo o mais que possamos desejar – saúde, alegrias, amigos, conhecimento, paz, sustento para o corpo e crescimento da alma – nos será acrescentado.

A simplicidade no diálogo com Deus é uma das marcas do islamismo. Monoteísta, como o cristianismo e o judaísmo, o Islam se diferenci-a, entre outras coisas, por não se organizar em Igrejas nem acreditar em intermediários entre Deus e os homens. Ao contrário do que a maioria de nós pensamos,  Mohammad (s.a.a.s) não é santificado pelos muçulmanos, mas apenas reverenciado como “o selo dos profetas”, o último dos mensa-geiros enviados por Deus para fundar uma nova comunidade de crentes. A tradição (hadith) admite que existiram 124 mil profetas em várias na-ções e línguas, desde Adão até Mohammad (s.a.a.s), mas a maioria não fundou comunidades (ou religiões), o que só foi concedido àqueles que, a-lém de profetas, eram também mensageiros de Deus. A Torá, os Salmos e os Evangelhos são reconhecidos pelo Islam, junto com o Alcorão, como livros santos.

“Cremos em Deus e no que nos foi revelado e no que foi revelado a Abraão e a Ismael e a Isaac e a Jacó e às tribos, e no que foi autorgado a Moisés e a Jesus e aos Profetas pelo seu Senhor. Não fazemos distinção entre eles, e a Ele nos submetemos (Surata 2:136)”

A conceituação original do islamismo, aquela que importa conhecer, está no Alcorão. Mas, é sabido que esse não é um livro fácil para os oci-dentais. As traduções retiram toda a musicalidade da língua árabe e comprometem o alcance sugestivo das imagens contidas em cada um dos versículos das 114 suratas (capítulos). Em cada uma das revelações há referências e orientações sobre alguns dos episódios, necessidades e conflitos in-ternos que marcaram a formação do Islam entre os árabes, o que dificulta o entendimento para quem não tem a referência cultural apropriada sobre o período histórico da pregação do profeta. Além disso, as suratas foram reveladas a Mohammad (s.a.a.s) ao longo de 23 anos, se destina-vam às recitações – daí a razão das repetições de trechos inteiros – que deveriam ser memorizadas pelos fiéis e só tomaram a forma de textos, reu-nidos em um livro, 18 anos após a morte do profeta.

Ao longo dos séculos de estranhamento e interpretações reducionistas, através das obras de orientalistas que estudaram os povos e a cultura do Oriente a partir dos conceitos da supremacia euro-ocidental – e com o objetivo de reforçaram essa visão geopolítica – uma crosta de preconceitos formou-se sobre o Islam. Nem mesmo verdades objetivas, como o crescimento do islamismo em todo o mundo – hoje, são mais de três bi-lhões de fiéis –  e o fato do terrorismo dizer respeito apenas uma parcela diminuta das correntes de pensamento islâmicas, parecem ter o poder de corrigir essa visão distorcida sobre o Islam. Para os interessados em uma visão sem preconceitos e mais clara de uma das maiores religiões do mundo, recomendo alguns livros, disponíveis nas livrarias de Natal:
– Uma História dos Povos Árabes – Albert Habib Houram
– Maomé, uma biografia do profeta – Karen Armstrong
– Caminhos do Islã – vários autores (org. de Marcus Lucchesi)

Carlos Peixoto

Jornalista

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