pedagogia do encontro religioso: duas estórias

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Uma vez, em Izmir, um colega me convidou à sua casa, pois seu avô estava morrendo. Quando cheguei, o avô estava de cama, muito fraco, mas ainda consciente. A família estava no outro canto do quarto, tomando chá e conversando baixo. Dois ou três membros da família – a avó, um dos filhos, uma sobrinha ou sobrinho – ficavam sempre do lado da cama repetindo com o avô a islâmica profissão de fé: “Não há deus se não Alah (o Deus)”. Depois de um tempo, outros membros da família trocavam de lugar com aqueles ao lado da cama, mas a oração continuava mesmo depois que o avô caía no sono. Aprendi que a oração islâmica mais comum para uma morte feliz diz: “Ó Deus, quando eu alcançar o momento da morte eu rezo para que ‘Não há deus senão Alah’ esteja em meus lábios”. Durante a noite, o avô morreu dormindo, com sua esposa e três crianças crescidas ao lado da cama repetindo, em seu nome, “Não há deus senão Alah..” Eu aprendi mais naquela noite sobre a atitude islâmica a respeito da morte, do que tinha aprendido durante meus anos de doutorado sobre o pensamento islâmico. Um outro exemplo que ficou comigo é o “diálogo” que tive com várias mulheres muçulmanas que não conhecia. Estava ensinando uma introdução à teologia cristã, na Faculdade de Teologia da Universidade Selcuk, em Konya, Turquia, a cidade do amado santo Sufi e poeta, “Mevlana”, Jalal al-Din Rumi. Eu tinha um apartamento pequeno em um bairro de classe operária e era conhecido e bem aceito como o “rahip” a palavra Qur’nic (rahib) para monge cristão. Uma tarde, logo depois que comecei minha aula na universidade, voltei para casa e encontrei um homem sentado na escada em frente ao meu apartamento esperando por mim. Ele disse que sua mulher havia passado lá mais cedo, mas encontrara a porta trancada. Eu disse, sim, eu geralmente tranco minha porta quando não estou em casa. Ele disse que eu não precisava, pois as mulheres da vizinhança estavam sempre por lá e saberiam se alguém que não pertencesse ao lugar tentasse entrar. Eu percebi que para eles trancar minha porta era uma indicação de que eu não confiava em meus vizinhos. Então eu nunca mais tranquei minha porta durante minha estadia em Konya. Freqüentemente, voltava da faculdade e via que alguém havia anonimamente deixado uma tigela com arroz, berinjela, börek ou alguns kebabs no balcão. Depois de acabar a comida, eu lavava a tigela e deixava-a no mesmo lugar, e depois de alguns dias ela desaparecia. Dias depois eu recebia outro presente de comida. Outros dias eu retornava do trabalho e via que minhas roupas haviam sido lavadas, o chão varrido, lençóis da cama trocados, camisas passadas e dobradas, etc. Nunca vi a pessoa ou pessoas que fizeram esse serviço, no entanto presumo que tenha sido feito pelas mulheres da vizinhança. Isso continuou por seis meses até que, no final do semestre, era hora de deixar Konya e retornar a Roma. Eu disse a um dos homens que me visitou para me desejar uma viagem segura, que eu ainda tinha um último desejo. Eu mencionei tudo que as mulheres da vizinhança haviam feito e perguntei se eu poderia encontrá-las para agradecer pela generosa ajuda nos meses anteriores. Ele disse: – Você não precisa encontrá-las. Elas não fizeram isso por você; fizeram por Deus, e Deus, que vê tudo o que fazemos, irá recompensá-las. O Corão ensina que rahipler (monges) são umas das razões pelas quais os cristãos são a comunidade mais próxima em amizade dos muçulmanos, então é um ato de reverência (‘ibadah) para nós o tratarmos com gentileza.” Nem o homem que me disse isso, ou as mulheres desconhecidas (por mim) que louvavam a Deus através de sua hospitalidade, foram altamente treinados nas ciências religiosas. E mesmo assim me ensinaram a importante conexão entre louvar a Deus e prestar serviços gerais a um ”estranho no seu meio”. Essas mulheres que, para mim, encarnam as instruções de Jesus no Sermão no Monte para fazer caridade sem deixar que a mão esquerda saiba o que a direita está fazendo, levaram um diálogo genuíno para dentro de mim, ensinando-me na ação ao invés de na palavra, um aspecto chave do modo de vida islâmico. Uma vida compartilhada entre crentes em Deus pode tomar várias formas.

Pe. Thomas Michel SJ, Cadernos MAGIS de Fé e Cultura

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