O Jesus muçulmano

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O Jesus muçulmano

Khalid Musa – Muçulmano e jornalista


Quando o anjo Gabriel anunciou a Maria que ela teria um filho, ela perguntou: “como isso será possível, se homem algum me tocou?” E ele respondeu: “Assim será. Allah cria o que deseja, posto que quando decreta algo, basta dizer: Seja! E é.” (Alcorão 3: 45-47)

Os versículos, acima, constituem uma das 26 passagens onde Jesus, ou Saydna Issa (em árabe), que a paz de Allah esteja sobre ele, é citado no Alcorão, o livro sagrado dos muçulmanos. Em cada uma delas, está entendido que o nascimento de Jesus foi a expressão da vontade de Allah, anunciada pelo arcanjo Gabriel à virgem Maria, para que os homens conhecessem, através dele, a orientação e a luz, seguissem a senda reta e vivessem em paz. O Alcorão relata trechos dos milagres, da vida de pregações e da bondade de Jesus como exemplos. Na surata 43:57-64 é feita uma referência à segunda vinda de Jesus como “um sinal (do advento) da Hora”, logo antes da Ressurreição, quando as falsas doutrinas que usam seu nome serão destruídas e ele preparará o caminho para a aceitação universal da submissão a Allah.

Mas, apesar de tudo isso, o Jesus dos muçulmanos não é o mesmo dos cristãos. Para nós, muçulmanos, ele não é “o Filho de Deus”, mas o profeta nascido do Verbo divino. Ele é “o Ungido” (Messias) e um dos Mensageiros preferidos por Allah. A natureza divina, atribuída a Jesus pelos teólogos da Igreja, é posterior a pregação original do Evangelho. Não está nos textos hebraicos originais. “Jesus anunciava o Reino, mas foi a Igreja que apareceu.” A frase é do historiador Alfred Loisy (1857/1940). Ela não retira a legitimidade da Igreja como instituição, mas lembra que é preciso relativizar os dogmas e preceitos que, em sua maioria, são formulados a partir das necessidades práticas com as quais toda religião se defronta ao difundir a Mensagem revelada.

Não há, em todo o Evangelho, nenhuma passagem em que Jesus se auto intitule “Deus”. A Trindade (Pai, Filho e Espírito Santo) só foi introduzida de forma explícita na doutrina cristã por Paulo, na carta a Tito (2:13) composta por volta do ano 65 d.c., e levou muito tempo para ser inteiramente aceita, inclusive contando com a oposição inicial do apóstolo Pedro. Mesmo em  textos imediatamente posteriores às cartas paulinas, como os Atos dos Apóstolos (data de composição presumida, entre 83 e 87 d.c.) – cuja autoria é atribuída ao evangelista Lucas, companheiro dileto de Paulo – o tratamento preferencial é o de Marana e/ou Kyrios (vocábulos hebraico e grego, equivalentes a Nosso Senhor ou Senhor).

É apenas no Evangelho atribuído a João que a preexistência e a natureza divina do Verbo/Cristo está fixada, identificando-o com o logos dos gregos, mas esse é o mais tardio dos Evangelhos (composto, talvez, nos últimos anos do século I) e está claramente enviesado pelas doutrinas alexandrinas e gnósticas da época. Somente em 325, sob a proteção do imperador não-cristão Constantino, no Concílio de Nicéia, é que a natureza divina de Cristo é oficializada. Em 451, no Concílio de Calcedônia, a Igreja declarou que Jesus era Deus e Homem, legitimando em definitivo as posições de Paulo.

A impossibilidade do Islam reconhecer a natureza divina de Jesus – ou de qualquer outro profeta, uma vez que “Allah é Único, Eterno e Absoluto, jamais gerou ou foi gerado, e ninguém é comparável a Ele” (surata 112) – será sempre a maior dificuldade no diálogo com o cristianismo. Uma dificuldade que tem sua correspondente na recusa e desconfiança, por parte dos cristãos, quanto a origem divina e a sinceridade da mensagem recebida por Mohammad (s.a.a.s.). O quanto estamos distantes de uma solução de consenso pode ser medido pelo fato de que mesmo um católico que acredita no diálogo, como o padre Jacques Jomier, um dos fundadores do Instituto Dominicano de Estudos Orientais do Cairo, sinta necessidade de alertar: é preciso tomar cuidado com os muçulmanos que, durante festas como o Natal, “recitarão as passagens corânicas referentes a Jesus e a Maria, para agradar aos cristãos” (Islamismo – História e Doutrina, pp. 191. Vozes/1992). O aviso serve como introdução em um livro que deveria promover a uma maior compreensão do Islam pelos cristãos, mas de forma equivocada acaba por enfatizar que só a visão da Grande Igreja (sic) traduz a fé verdadeira, possível de levar os homens à salvação.

Acima das interpretações teológicas de ambos os lados, o que deveria permanecer é a força espiritual inerente às mensagens de Jesus e Mohammad (s.a.a.s): o culto do amor a Allah (Deus), o Único, e a busca pela justiça e a paz entre os homens. Esses objetivos, me parecem, são suficientes  para manter abertas vias permanentes de cooperação entre o cristianismo e o Islam.

 

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