O sistema de educação do Profeta

+A | -A


O sistema de educação do Profeta*

Pelo sheikh Mabrouk El Sawy Said – Centro Islâmico do Recife

Mohammad Ben Abdullah Ben Abdul Muttalib Ben Haxime Ben Aabid Manaf é o nome completo do ultimo Profeta e Mensageiro de Allah, que nasceu na cidade de Makka, na Árabia, no ano de 579 DC, pertencente à nobre tribo Coraixe, descendente de Ismail, filho de Abraão.

Conhecido por Mohammad ou Ahmad, ficou órfão, sendo mantido pelos cuidados do seu avô Abdul Muttalib e, após o falecimento deste, passou aos cuidados do tio Abu Talib. Ainda adolescente, participou de caravanas, o que lhe valeu o conhecimento correto da natureza do lugar e o educou no cumprimento do seu dever e para passar por provas difíceis nas rotas e travessias perigosas, experiências que muito lhe ajudaram durante a missão profética iniciada aos 40 anos de idade.

O aparecimento do último Profeta e Mensagei[1]ro de Allah (saas) revolucionou, incontestavelmente, a vida de seus conterrâneos. O Profeta, desde o início, pregou diretamente sua fé em Allah Único, por 13 anos de forma privada, intensificando essa pregação ao receber a ordem divina de expressá-la publicamente. Começava, então, uma longa carreira de perseguições, sofrimentos, batalhas contra os inimigos e a conquista universal da derradeira revelação divina aos homens e aos gênios.

A missão do Profeta (saas) durou, ao todo, 23 anos, mas toda a sua vida foi dirigida por uma ideologia monoteísta de maneira a realizar, perfeitamente, os desígnios de Allah nos mais variados campos da sabedoria humana, tendo recebido, inicialmente, a incumbência de ensinar aos muçulmanos.

O sistema de educação usado pelo Profeta (saas), para difundir e assegurar o aprendizado do Islam constou de métodos pedagógicos subordinados ao Teocentrismo determinante do plano espiritual e temporal que domina a doutrina islâmica. Leva-se em consideração que o Profeta de Allah (saas) era iletrado e não havia (seja na Europa da Idade Média ou na Península Arábica) estabelecimentos de educação que aplicassem a teoria e a ciência da educação juntos. Entretanto, o Profeta (saas) promoveu com entusiasmo a introdução de técnicas de ensino que foram aplicadas com sucesso, entre os muçulmanos, tais como: o ensino por etapas, o lugar do ensino, clareza no que está sendo ensinado, memorização e prática, dinâmica de grupo, síntese e socialização.

 

Foi assim que o Profeta Mohammad (saas) caminhou dentro do sistema de educação prescrito por Allah, referendado pelo Alcorão, com todas as esferas de atividades exploráveis.

O posicionamento adotado é um episódio marcante na historia islâmica, sem precedente na história da humanidade. Para mudar os costumes ilícitos para lícitos, usou a humildade, a paciência e apelos para os sentimentos de solidariedade social, ultrapassando o mero nível de relações tribais que existiam entre os árabes da época. Neste contexto, o Profeta (saas) lançou as bases de um método que assegurou a exploração das mentes árabes, tornando frutífero seus ensinamento, inspirando-as para um futuro próximo de investigação cientifica, o que é ordenado pela essência alcorânica.

Foram os sahaabat[2] do Profeta Mohammad (saas), levados a descobrirem o progresso do pensamento, que não ficaram limitados e seus esforços conduziram suas mentes e influenciaram os árabes e não árabes a se engajarem no grupo muçulmano. O método de ensino preconizado pelo Alcorão libertou completamente o raciocínio (dos limites e idéias preconcebidas pelo tempo), tudo sob a orientação divina, permitindo ao Profeta (saas) realizar, na proporção exata, a aquisição do conhecimento, posteriormente distribuído diariamente aos seus companheiros, dentro da mesma linha de ensino, no máximo que eles podiam agüentar, estimulando-os com franco e sadio diálogo.

Essa abordagem facilitou a observação dos princípios do Islam. Os maus costumes foram substituídos por uma justa qualidade de vida para os seguidores do Islam, o que transmitiu a verdade e manteve a boa fé. A conduta do Profeta Mohammad (saas) era decente, abstendo-se de tudo que era imoral, cumprindo os deveres para com Allah. Nada foi esquecido ou descuidado no ensinamento do Islam.

Com segurança, o Profeta (saas) explicou o significado da Mensagem Revelada, versículo por versículo, bem como o motivo da revelação, determinando o aparecimento da Sunnat[3]. Logo, as orientações de Mohammad (saas) são comentários vivos, que descrevem a integração do homem em todos os momentos da vida. Esses comentários (ou Sunnat) interpretam as normas do Alcorão, transmitindo a mensagem em toda a sua extensão para prover as necessidades espirituais e intelectuais dos muçulmanos.

Assim, o Alcorão guia os passos dos muçulmanos e a Sunnat encaminha-os na direção precisa, para que não ser percam nem distorçam os ensinamentos retidos no Livro Sagrado. Desta forma, o Livro Sagrado e a Sunnat são, obrigatoriamente, estudados juntos.

Inicialmente, o aprendizado deve ser realizado, como fazia o Profeta (saas), por etapas.

Sendo a mesma mensagem pregada por todos os Profetas, a mensagem transmitida pelo Profeta e Mensageiro de Allah (saas), revela a necessidade do homem voltar ao caminho certo e esta foi a razão pela qual os ensinamentos, paulatinamente, foram sendo repassados para todos os companheiros.

 

Durante certo período, a formulação dos princípios do Alcorão foi ensinada por etapas. O Profeta (saas) sabia que seu povo, na maioria, vivia na ignorância absoluta. Então, ele acompanhou com exatidão o desenvolvimento harmonioso da primeira fase do aprendizado, cuja didática utilizada despertou, nos sahaabat, o interesse de estudar pouco a pouco, mas sempre cada vez mais. Cada aspecto da mensagem revelada foi transmitido de maneira fácil, não cansativa. Dessa maneira, os sahaabat não só avaliaram a importância das palavras retidas na revelação, como também passaram ao estudo mais aprofundado das ordem de Allah, que lhe retirava certos hábitos indesejáveis.

Naturalmente, o método funcionou da seguinte forma: primeiro, o Profeta (saas) usou aconselhar; em seguida, mostrou o mal que acometida a saúde ou a outros aspectos da vida pessoal e da comunidade, ao se praticar determinada coisa indesejável e moralmente errada; terceiro, anunciou a proibição definitiva sobre aquilo.

Tomemos como exemplo a proibição sobre a ingestão de bebidas alcoólicas e sobre o jogo de azar. Primeiro, os muçulmanos foram aconselhados sobre os males advindos da bebida e dos jogos de azar, como explica o versículo 219 da Surata 2: “Perguntam-te pelo vinho e pelo jogo de azar. Dize: há em ambos grandes pecados e benefícios para os homens, e seu pecado e maior que seu benefício”.

Quando este versículo foi revelado, teve muçulmano que deixou a bebida e o jogo de azar de imediato. Como se vê, foi um conselho sobre os efeitos negativos tanto para o lado material como espiritual que resultam da bebida inebriante e do jogo de azar. Depois de certo tempo, foi recebido o versículo 43 da Surata 4, pedindo correção na conduta de alguns muçulmanos que, a época, compareciam para as orações alcoolizados: “Ó vós que credes! Não vos aproximeis da oração, enquanto ébrios”.

A última revelação dirigida ao fim dos vícios relacionados à bebida e aos jogos de azar chegou de maneira fortemente coercitiva, objetivando manter a sociedade islâmica longe das coisas condenáveis à formação moral dos sahaabat: “Ó  vós que credes! O vinho e o jogo de azar e as pedras levantadas em nomes de ídolos e as varinhas da sorte  não são senão abominação; ações de Satã. Então, evitai-as na esperança de serdes bem aventurados. Satâ deseja apenas semear a inimizade e a aversão, entre vós, por meio do vinho e do jogo de azar, e afastar-vos da lembrança de Allah e da oração. Então, abstervos-eis disso? E obedecei a Allah e obedecei ao Mensageiro e precatai-vos. Então, se voltais as costas, sabeis que impende apenas, a Nosso Mensageiro, a evidente transmissão da Mensagem”. Surata 5, versículos 90 a 92

A sistemática do Alcorão forneceu ao Profeta (saas) as condições cabíveis à realidade social do seu povo, ministrando as técnicas e os métodos necessários à formação moral e religiosa por etapas, um processo lento, mas completado com perfeição.

A convivência pacifica do Profeta (saas) com os primeiros sahabbat, que perdurou com todos os seus seguidores, fez com que no início da divulgação, quando ainda estavam em Makka, escolhessem a casa de Al Arqam Bem Abd Manaf como lugar de ensino e difusão do Islam. Pessoas humildes e simples, alguns prósperos senhores, se encontravam com o Profeta (saas) nesse local, onde recebiam muita atenção e um novo modus vivendi; traduzido no ensinamento da Mensagem.

Efetivamente, à significação de cada parte da Mensagem recebida fixava orientações para o amadurecimento religioso. E assim, dentro das normas de comportamento inerentes a sua missão, o Profeta Mohammad (saas) revelou-se um excelente professor e educador em qualquer lugar, sem o ambiente afetar à motivação dos seus alunos, de maneira que quando o espaço na casa de Al Arqam se tornou pequeno, ele procurou desenvolver suas atividades em um lugar mais amplo, sendo constantemente visto sentado sob as árvores ensinando coisas novas ou tirando-lhes dúvidas.

Assim, a sala de aula do Profeta Mohammad (saas) era o local que melhor servisse ao estudo. Quando ele migrou para Medina, construiu uma mesquita que era, simultaneamente, local de orações, escola, tribunal e sede do conselho e local de reuniões da comunidade muçulmana.

O terceiro aspecto no sistema educacional do Profeta (saas) foi o desenvolvimento e utilização de uma linguagem clara e bem definida, para fixar o aprendizado. Ele passava a matéria devagar para que todos pudessem aprender bem a interpretação do texto sagrado, respeitando a potencialidade de cada sahaabat.

Era conveniente usar uma linguagem de fácil entendimento e persuasão, porque estava diante de pessoas de nível cultural heterogêneo e algumas delas podiam não entender perfeitamente os valores do Alcorão que estavam sendo ensinados. Para conseguir a plenitude do seu trabalho, Mohammad (saas) recebia com agrado as sugestões dos muçulmanos e o desejo e o interesse deles foram muitas vezes aproveitados, resultando em uma grande interação entre o mestre e os alunos. Uma maior amplitude dos estudos trouxe a oportunidade de aproveitar um aspecto fundamental na cultura árabe, a memorização e a pratica, que lhe valeu guardarem fielmente o que lhe foi ensinado para as gerações futuras. O Profeta (saas) sempre recomendava aos sahaabat, que possuíam maior conhecimento, que passassem para cada membro da comunidade muçulmana o que aprenderam e praticar juntos para fixar o aprendido. Com isso, objetivava adaptar os muçulmanos às novas regras e que elas a seguissem com estimulante prazer.

A memorização e a prática levaram à dinâmica de grupo. Após cada oração diária, os sahaabat ficavam em grupos, organizavam-se em círculos e estudavam. Segundo Annas (companheiro do Profeta), “os sahaabat, depois da oração da madrugada, sentavam-se e formavam grupos, recitavam o Alcorão e estudavam. O Profeta (saas) não escondeu deles nenhuma palavra do Alcorão e lhes dedicava bom tratamento e boa moral”.

O enviado de Allah tratava todos os assuntos do Alcorão em aula, para que todos ficassem sabendo das palavras do Absoluto sem dificuldades. Mantinha relações com os sahaabat de irmão ou pai. Quando os ensinava, falava-lhes com boas maneiras para que todos entendessem. Salientou, certa vez:” na verdade, sou para vós como pai. Se vós quiserdes fazer necessidades fisiológicas, não se direcionem a frente da Qibla[4] ou atrás da mesma. Fiquem na posição correta”. Isso para que os muçulmanos tivessem cuidado e se posicionassem contrários a direção da Casa de Allah (a Kaaba) ao fazer suas necessidades orgânicas.

Conforme relatos dos companheiros, o Profeta Mohammad (saas) não falava muito, muitos suas aulas enfocavam um assunto alcorânico com poucos versículos para não cansar os sahaabat. Ele sintetizava o assunto, explicando para que entendessem bem. Usava didática. Ensinava dez versículos do Alcorão e os sahaabat só passavam para uma nova lição quando todos mostravam conhecer a anterior ao mesmo tempo e que sabiam, na prática, o que continham os versículos ensinados. Compreendiam, desta forma, que o Alcorão e a Sunnat devem ser ensinados e praticados juntos.

Acontece que, com tudo isso, alguns muçulmanos passaram a morar na mesquita do Profeta (saas), para estudarem a religião e a sharia (a lei islâmica), e depois voltarem para suas cidades dando continuidade, repassando o que aprenderam ao seu povo. Maliq Bem Al Houaireth testemunhou essa conduta entre os jovens muçulmanos. “Chegamos ao Profeta Mohammad (saas) e falamos: – Somos jovens e praticamente temos as mesmas idades. Ficamos na mesquita vinte noites. O Profeta (saas) pensou que estávamos falando por saudade de nossas famílias, perguntando-nos sobre quem tinhamos deixado me nossas casas. Respondemos para ele. O Profeta (saas) estava misericordioso, educado. Falamos também que deixamos nossas casas para nos dedicar bem ao Misericordioso. O Profeta (saas), então, falou: – Voltem para suas famílias e as ensinem. Trate-as bem, orem como vós me olharam orar. Ao chegar o horário da oração, um de vós faz o Azaan[5] e o mais velho fica imam[6]”.

Estas palavras chamam a atenção por mostrarem a índole do Profeta de Allah (saas), ao ensinar aos jovens regras de sociabilidade, que é o objetivo da educação, e orientá-los a conceder aos mais velhos o direito de dirigir a oração. Pela sociabilidade, os muçulmanos foram integrados á sociedade islâmica, pois passavam a colaborar uns com os outros, a trabalharem com comum, conviverem pacificamente e servirem à comunidade como um todo.

A eficiência do mestre e sua dedicação foram partes importantes na formação islâmica do seu povo, assistindo-o independentemente do sexo e faixa etária e levando-o a participar da maneira mais intensa possível da revelação, quando ajustou o beduíno ou um prospero cidadão a um novo sistema de vida comum a todos. Incontáveis vezes o Profeta (saas) ouviu declarações de pessoas que se deslocavam de suas aldeias em busca de orientação junto a ele.

Abu Huraira, um dos sahaabat, contou que, certa vez, chegou um homem da tribo Bani Fazarat para falar ao Profeta (saas) e narrou o seguinte caso: “minha mulher gerou uma criança negra e não a aceitei. O Profeta (saas), perguntou-lhe: você tem camelos? O homem respondeu que sim. O Profeta falou: quais as cores deles? O homem disse que eram vermelhos. O Profeta tornou a interrogá-lo: Entre esses camelos, tem um pardo? O homem asseverou, completando: Acho que antecedentes dele tinham essa cor. O Profeta, referindo-se ao recém nascido, disse: Essa criança, também , é igual aos antecedentes dela”.

Desta forma, orientando-se dentro da cultural do seu próprio povo, o Profeta (saas) aplicou o conhecimento que aquele homem já possuía para transmitir novos conhecimentos e fazê-lo aceitar o filho negro. Há, na vida do Mensageiro de Allah (saas), inúmeros episódios semelhantes, anotados pelos sahaabat e transmitidos ás gerações futuras, que ilustram esse tipo de ação.

Incorporando novos conceitos de vida ao dia a dia dos muçulmanos, de maneira simples e acessível para eles, o Profeta (saas) fez com que adquirissem um novo comportamento, facilitando-lhes o conhecimento das proibições sobre o que era ilícito e ensinando-os a prática do que era lícito sem complicações.

Assim, se traduziu de maneira marcante o Sistema de Educação do Profeta (saas), que foi um bálsamo na vida de seu povo, povo este que desconhecia a própria potencialidade em meio ao deserto. Agindo com inteligência e capacidade, ao adaptar os muçulmanos às novas situações, caracterizou a organização social que comandou e liderou por 23 anos.

Posteriormente, muitos recursos da educação islâmica foram usados ou ainda estão sendo utilizados pelo estado moderno, mas eles não reconhecem que esses métodos foram desenvolvidos pelo Mensageiro de Allah (saas), que formou no espírito dos sahaabat a preservação da Sunnat.

 

 

 

 

 

 



[1] Saas é a abreviatura da expressão árabe “Sala Allahu Ailihi ua Salaam” – que a paz e a benção de Allah esteja com ele – que muçulmanos devotos usam após qualquer menção ao nome do Profeta.

[2] Companheiros, em árabes, que conheceram e conviveram com o Profeta (saas)

[3] Sunnat, em árabe, é o conjunto dos ensinamentos pessoais do Profeta (saas)

[4] Qibla é direção, marco indicador para o qual os muçulmanos devem se voltar, ficando de frente para Makka ao realizar suas orações. Não se trata de um altar ou algo do gênero.

[5] Azaan é o chamado para a oração, recitado pelo muezin nas mesquitas

[6] Literalmente, o líder, a pessoa que conduz a oração em grupo. Geralmente, o mais velho ou aquele que sabe mais sobre o Alcorão e a sunnat.



  • Este texto é uma adaptação do capítulo “O sistema educacional do Profeta”, parte do livro História e Ciência da Sunnat, do sheikh Mabrouk El Sawy Said, publicado em 2009 no Recife (PE). Sua reprodução por Al Tawdih foi autorizada pelo autor. Que Allah o recompense!
592
votar
Thanks!
An error occurred!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *