SEGUIDORAS DE ALLAH NO CEARÁ

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Um grupo de mulheres residentes, ou naturais de Fortaleza, encontra no Islamismo conforto espiritual e uma nova cultura. Elas expressam essa escolha por meio dos hábitos e vestuário

DIÁRIO DO NORDESTE FORTALEZA, CEARÁ DOMINGO, 17 DE JUNHO DE 2012
KELLY GARCIA
siara@diariodonordeste.com.br
especial para a Siará

Eles não têm uma Mesquita, templo sagrado para os muçulmanos, mas são uma comunidade.
Há cerca de dez anos, em torno de 120 fiéis, entre homens e mulheres, brasileiros e estrangeiros, reúnem-se todas as sextas-feiras, ao meio–dia, no bairro Jacarecanga, para orar, voltados para Meca (cidade sagrada), conforme manda a tradição religiosa. Integrantes do Centro Islâmico do Ceará, eles seguem, como podem, os preceitos de uma religião cujos mandamentos causam estranhamento e são até mesmo desconhecidos, sobretudo, pelos católicos, maioria em nosso País.
As mulheres, discípulas de Allah (Deus único), chamam a atenção nas ruas, graças ao hijab, um lenço que deve ser usado em público e nos momentos de oração, cobrindo os cabelos, pescoço e até o colo. As histórias que levaram essas mulheres à conversão ou reversão, como preferem chamar a mudança de vida, são as mais variadas. Em grande parte, não tiveram a influência masculina, seja do pai, do marido ou namorado. Elas optaram seguir os mandamentos regidos pelo livro sagrado do Alcorão (a palavra de Deus dita ao profeta Maomé), por escolha própria. As consequências: mudaram a forma de ver o mundo e também de serem vistas por ele.

Respeito

Para a estudante de Farmácia Emanuela Leonardo Naas, 30 anos, o primeiro contato com a religião se deu aproximadamente há 14 anos, quando conheceu o marido, o engenheiro líbio Tawfik Naas. Na época, Emanuela, nascida na Parnaíba, Piauí, morava em Tutóia, no Maranhão, e era gerente de uma loja de produtos importados. Tawfik estava a passeio, tinha ido visitar o irmão que morava na cidade e lá se encantou pela moça. Porém, não impôs que a estudante se convertesse. entre o casamento e a conversão passaram-se dez anos. “Tenho 14 anos de casada, mas preferi estudar bastante antes de tomar a decisão. Meu marido, em nenhum momento me pressionou a seguir a sua crença”, diz. Emanuela mora em Fortaleza há três anos e, desde então, frequenta o Centro Islâmico do Ceará com os dois filhos.
Mesmo antes de se tornar muçulmana, a estudante preferiu educar os filhos na religião. “O Islamismo transmite conceitos importantes, como o respeito pelo outro. Um dos que gosto mais é o fato de ninguém ter o direito de julgar a outra pessoa, mas somente Deus”, explica. À espera apenas do juízo de Allah, Emanuela prefere usar o hijab (véu), somente nas orações. No cotidiano, veste calça jeans e blusas com mangas.

Preconceito

A mesma atitude é compartilhada pela dona de casa Mônica Cunha, 44 anos. “Sei que estou falhando por não usar o véu sempre, mas sei que vou prestar contas com Deus no dia do julgamento”. Mãe de dois filhos, Mônica frequenta o Centro Islâmico com o caçula de 15 anos. “O mais velho já é casado, mas todos da família, até mesmo os católicos, que moram em Belém, aceitam minha escolha”.
Porém, há quem enfrente barreiras culturais. A professora de culinária Ana Flávia Costa Netto ou Hanan Latifah, como prefere ser chamada, exerce toda sua convicção e paciência para manter-se fiel à religião escolhida e assim suportar a intolerância de quem não compreende e respeita sua opção.
“Moro na periferia e enfrento muito preconceito por parte dos que residem lá e também ao usar o transporte coletivo”, conta.
Hanan Latifah se aproximou do Islamismo quando morou em Portugal, lá cinco anos. Após um período de depressão, ela abandonou o emprego de Guarda Municipal em Fortaleza e decidiu morar com familiares. No Exterior, ela admirava a forma de vestir dos imigrantes marroquinos,que seguem os preceitos da cultura islâmica. Isso aguçou a curiosidade da moça, embora, até então,não tivesse nenhum conhecimento específico sobre a religião.
Ao regressar ao Brasil, Hanan assistiu a vários episódios da série norte-americana OZ, só para conhecer melhor um dos personagens, que era muçulmano. A identificação com as práticas da religião foi se solidificando e, há três anos, tornou-se islâmica.
O preconceito ainda é forte e desde que voltou ao Brasil, Hanan ainda não conseguiu emprego.
“Me visto como muçulmana e acredito que deve ser por isso que sou sempre eliminada nas entrevistas”, destaca. Mas isso não a desestimula a seguir os ensinamentos de Allah, tanto que, ela própria se tornou multiplicadora da tradição muçulmana.
Aos sábados, ela ensina o que aprendeu sobre culinária, ainda em terras lusitanas, às outras mulheres que frequentam o Centro Islâmico. Os pratos vão desde o regional baião de dois até alguns quitutes árabes, que ela aprendeu sozinha. Para elas, os encontros são uma forma não só de melhorar os dotes na cozinha, mas para conversar sobre os problemas e as alegrias do cotidiano de quem professa a religião de Allah.

Halal

Uma das alunas mais aplicadas do curso é Amar Alrai, 20 anos. Estudante de Radiologia, a jovem nasceu na religião islâmica e, desde criança, foi ensinada a observar os preceitos do Alcorão. Seus pais são sírios e moravam na segunda cidade com maior comunidade muçulmana do Brasil: Foz do Iguaçu, no Paraná.
Hoje, ela reside com os pais em Fortaleza e é uma das poucas integrantes da comunidade cearense. Ao lembrar da cidade natal, Amar confessa sentir falta de encontrar, no comércio de Fortaleza, alimentos adequados ao preparo da comida “halal”. “Lá, existiam abatedouros que forneciam carne conforme os preceitos do Alcorão”.
Além de não consumirem carne de porco, os muçulmanos observam algumas regras no abate dos animais, entre elas a de que os bichos não podem ser torturados e todo o sangue deve ser retirado.
Porém, no caso de não haver nenhum estabelecimento que venda carne desse tipo, os fiéis podem consumir as disponíveis.
Com essas adaptações, os muçulmanos que moram na Capital tentam manter as tradições e ainda vencer o preconceito, muitas vezes ocasionado pela falta de informação.
Daí o Centro Islâmico ser aberto a visitações, funcionando das 8 às 11h e das 16 às 20h, de domingo a quinta. Na sexta e no sábado vai das 8h às 20h. De acordo com o presidente da entidade, Abdul Alrai, para adentrar no local de orações, os homens devem vestir calças compridas e as mulheres o véu. Para quem não tiver a vestimenta, o Centro disponibiliza aos visitantes.

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